Mounjaro e musculação: o que as sociedades recomendam

Sim. Um parecer de quatro sociedades médicas, de 2025, diz que esses remédios devem ser receitados junto com exercício, com treino de força pelo menos 3 vezes por semana e 150 minutos de aeróbio, para preservar músculo e osso. A base vem de estudos com dieta e com liraglutida; ensaio de musculação com tirzepatida ainda não foi publicado.
Quem começa a usar a caneta costuma ouvir duas coisas opostas: que precisa "segurar o músculo" na academia e que o remédio deixa sem energia para treinar. A pergunta sobre Mounjaro e musculação tem uma resposta mais sólida do que parece. Ela está escrita em documentos de sociedades médicas, e esses mesmos documentos contam onde a prova ainda falta.
A resposta curta
Sim, dá para fazer musculação usando o remédio, e é o que as sociedades médicas recomendam. Um parecer conjunto de quatro sociedades americanas, publicado em 2025, diz que esses remédios devem ser receitados junto com um programa de exercício, com treino de força pelo menos 3 vezes por semana e pelo menos 150 minutos de exercício aeróbio moderado por semana, para preservar músculo e osso.
A ressalva honesta: a base dessa recomendação vem de estudos com dieta e com um remédio mais antigo da mesma família. Ainda não foi publicado um ensaio que teste musculação junto com a tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro. Dose, ajuste e interrupção do remédio são decisões do médico.
O que as sociedades recomendam
O documento se chama, em tradução livre, "Prioridades nutricionais para apoiar a terapia com GLP-1 na obesidade". Foi escrito em conjunto pelo American College of Lifestyle Medicine, pela American Society for Nutrition, pela Obesity Medicine Association e pela The Obesity Society, e publicado em 2025 ao mesmo tempo em quatro revistas científicas. Ele cobre a semaglutida, a liraglutida e a tirzepatida.
Sobre exercício, o parecer diz cinco coisas claras:
| O que o parecer diz | Em outras palavras |
|---|---|
| Remédio junto com programa de exercício | Treino de força pelo menos 3 vezes por semana e pelo menos 150 minutos semanais de aeróbio moderado |
| Proteína sozinha não basta | Comer mais proteína, sem treino de força estruturado, provavelmente não é suficiente para preservar o músculo |
| Só aeróbio protege menos | Durante uma perda de peso rápida, o aeróbio sozinho tem efeito menor sobre a massa magra do que a musculação ou o treino misto |
| O plano se ajusta à pessoa | O treino deve respeitar o condicionamento e a capacidade física de cada um, para que a pessoa consiga manter |
| Força também se mede | A avaliação inicial inclui força, função e composição do corpo, e o médico deve perguntar se a pessoa já faz treino de força |
Uma frase interessa diretamente a quem treina. Os autores explicam que as pesquisas sobre como o remédio afeta a qualidade do músculo e a função física ainda estão em andamento, sobretudo em pessoas mais jovens. Até lá, dizem, conversar com um fisiologista do exercício ou um profissional de treino de força pode ajudar muita gente a avaliar a força, montar o programa de resistência e acompanhar a evolução com o tempo.
De onde vem essa recomendação
Se ainda não há ensaio de musculação com tirzepatida, em que as sociedades se apoiaram? Em quatro tipos de evidência, todos indiretos, mas que apontam para o mesmo lado.
| Estudo | Quem foi estudado | O que achou |
|---|---|---|
| Metanálise em rede, 2026 | 34 ensaios, 1.455 pessoas com sobrepeso ou obesidade fazendo dieta | Somar exercício à dieta evitou quase metade da perda de massa livre de gordura |
| Metanálise da Unicamp, 2018 | 6 ensaios com idosos com obesidade fazendo dieta | Musculação 3 vezes por semana evitou cerca de 94% da perda de massa magra causada pela dieta |
| Ensaio dinamarquês, 2024 | 195 adultos com obesidade, por um ano, com liraglutida, exercício, os dois ou placebo | No grupo combinado, a densidade dos ossos do quadril e da coluna não caiu em relação ao placebo |
| Metanálise em rede, 2026 | 9 ensaios, 1.009 adultos, remédio da família GLP-1, exercício ou os dois | A combinação teve o maior efeito sobre peso, gordura e relação cintura-quadril |
Os detalhes de cada um mudam o tamanho da conclusão.
Dieta com e sem treino. A metanálise de 2026, publicada na Diabetes, Obesity and Metabolism, comparou dieta sozinha com dieta mais exercício. Em média, o exercício preservou 0,87 kg de massa livre de gordura. Quando os autores separaram por tipo de treino, o misto (força com aeróbio) teve o maior efeito, 1,20 kg, seguido pelo treino de força, 0,83 kg. O aeróbio sozinho ficou em 0,51 kg e não chegou a ter significância estatística. Só dois dos 34 estudos mediram o músculo esquelético diretamente, e os dois apontaram proteção.
Idosos. O estudo da Universidade Estadual de Campinas, publicado em 2018 na Nutrients, reuniu seis ensaios em que idosos com obesidade faziam dieta, com ou sem musculação três vezes por semana, por 12 a 24 semanas. O treino reduziu em 93,5% a perda de massa magra causada pela dieta, sem atrapalhar a perda de gordura. São poucos estudos e poucas semanas, mas numa idade em que perder músculo pesa mais.
Osso. Este é o dado que mais se aproxima do uso do remédio. No ensaio de Copenhague, publicado em 2024 na JAMA Network Open, todos fizeram uma dieta de baixa caloria por 8 semanas e depois passaram um ano em um de quatro grupos. O grupo que usou só liraglutida perdeu mais densidade óssea no quadril e na coluna do que o grupo que só fez exercício, mesmo com perda de peso parecida. Com o remédio e o exercício juntos, a densidade óssea não caiu em relação ao placebo. O exercício do estudo era moderado a vigoroso, não especificamente musculação, e o remédio não era a tirzepatida.
Combinação. Na metanálise de 2026 da Obesity Reviews, a confiança na evidência foi alta para peso e gordura, mas o exercício dos estudos era "estruturado", não necessariamente musculação.
Quanto de massa magra a tirzepatida faz perder, e por que massa magra não é o mesmo que músculo, está explicado em Mounjaro perde massa muscular?
O que ainda falta provar
As próprias sociedades são transparentes sobre o limite da evidência.
Em 2026, a The Obesity Society, a Obesity Medicine Association e a Obesity Action Coalition publicaram na revista Obesity uma orientação sobre remédios para obesidade feita pelo método GRADE, que gradua cada recomendação pela qualidade das provas. Os autores tentaram responder se exercício estruturado traz benefício extra para quem está em tratamento com remédio. Encontraram só dois ensaios, um com orlistate e outro com liraglutida. Os dois sugeriam melhora na composição do corpo, sem perda de peso adicional, mas a evidência foi considerada insuficiente para uma recomendação formal.
O mesmo documento registra outro buraco: a capacidade para atividade física foi considerada um desfecho importante por médicos e pacientes, mas não foi medida nos estudos revisados. O painel colocou isso como prioridade de pesquisa.
Um guia prático publicado em 2025 na Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders diz o mesmo com outras palavras: faltam ensaios que prescrevam musculação junto com os remédios da nova geração. E registra um ponto que costuma sumir da conversa: ainda não há dados suficientes para afirmar que a perda de massa magra com esses remédios aumenta o risco de fragilidade, quedas ou sarcopenia.
Resumindo: todas as evidências apontam para o mesmo lado e o treino bem feito tem risco baixo, mas quanto músculo a musculação preserva em quem usa tirzepatida ainda não foi medido.
Como é o treino que os estudos usam

O guia prático de 2025 traz uma tabela de treino para quem está perdendo peso e quer proteger músculo e osso. Ela foi escrita para perda de peso em geral, não para um remédio específico, e serve como modelo de partida:
| Parte do treino | O modelo do guia |
|---|---|
| Musculação | 2 a 3 sessões por semana, com pelo menos 48 horas entre elas, até 60 minutos |
| Exercícios | 6 a 8 por sessão, para o corpo todo: leg press ou agachamento, cadeira extensora, flexora, panturrilha, supino ou flexão, desenvolvimento, remada e puxada |
| Volume | 3 séries de 6 a 12 repetições, com 1 a 3 minutos de descanso |
| Esforço | Começa moderado e sobe aos poucos até um esforço alto, medido pela percepção de cansaço |
| Aeróbio | 3 a 5 sessões de 30 a 60 minutos: caminhada rápida, bicicleta, natação, elíptico |
| Equilíbrio e função | 1 a 2 dias por semana, recomendado sobretudo para idosos: levantar da cadeira, equilíbrio em pé |
Repare na diferença de frequência: o guia fala em 2 a 3 sessões de musculação, e o parecer das sociedades fala em pelo menos 3. Os dois concordam no essencial: força para o corpo todo, com carga que aumenta aos poucos.
O guia lembra que, para iniciantes, dor muscular nos dias seguintes é esperada; o que é normal e o que é alerta está em dor muscular depois do treino. A ordem entre aeróbio e musculação está em cardio antes ou depois da musculação.
Cuidados de quem treina usando o remédio
A bula americana do Mounjaro, aprovada pela FDA, traz alertas que não falam de exercício, mas pesam na rotina de quem treina.
Enjoo e pouca fome. Enjoo, vômito e diarreia são os efeitos mais comuns, às vezes fortes. Uma revisão narrativa de 2026 sugere, nas primeiras semanas, aeróbio na intensidade tolerada, adiando o de grande volume se o enjoo estiver forte, e musculação desde o início, com volume e carga conservadores. Os autores avisam que é uma orientação extrapolada de outras populações.
Hidratação. A bula relata casos de lesão aguda nos rins, registrados depois da chegada ao mercado, em pessoas tratadas com essa classe de remédio ou com o próprio Mounjaro. A maioria aconteceu em pessoas que tiveram enjoo, vômito ou diarreia a ponto de desidratar. O alerta pede atenção sobretudo no começo do tratamento e nos ajustes feitos pelo médico. Quem tem esses sintomas e ainda sua no treino precisa cuidar da água e avisar o médico.
Hipoglicemia em quem tem diabetes. Usado junto com insulina ou com sulfonilureia, uma classe de remédio para diabetes, o risco de hipoglicemia aumenta, inclusive de hipoglicemia grave. O exercício também baixa a glicose. Quem está nessa situação precisa combinar com o médico como treinar, e os cuidados básicos estão em diabetes tipo 2 e musculação.
A força como termômetro. O parecer das sociedades pede que a força seja avaliada e acompanhada. Na academia, isso tem um jeito simples: anotar carga e repetições. Se o peso cai e a carga dos exercícios principais se mantém ou sobe, é um bom sinal. Se a carga cai semana após semana, vale conversar com o médico e com quem monta o treino.
Para quem tem mais de 60 anos, o começo com segurança está em exercício depois dos 60: por onde começar, e o fortalecimento das pernas, em exercício para idoso fortalecer as pernas.
O que este artigo não responde
Quanto músculo a musculação preserva em quem usa tirzepatida. Esse número ainda não foi medido em ensaio publicado. Um estudo com semaglutida e tirzepatida está em andamento, e está descrito em Mounjaro perde massa muscular?
Quanto de proteína comer. O parecer trata disso em detalhe, mas é outro assunto, e o que vale para cada pessoa é o médico e o nutricionista que avaliam.
Se você deve usar, parar ou mudar o remédio. Isso é decisão do seu médico. Nenhum treino substitui essa conversa.
O que muda para o personal. Quem atende aluno em uso do remédio encontra o assunto em aluno usando Mounjaro: o que muda no treino.
O resumo em cinco linhas
- Quatro sociedades médicas recomendam o remédio junto com treino de força pelo menos 3 vezes por semana e aeróbio.
- Proteína sozinha, sem treino de força, provavelmente não basta para preservar o músculo.
- Com dieta, somar exercício evitou quase metade da perda de massa livre de gordura; em idosos, a musculação evitou cerca de 94% da perda de massa magra.
- Com liraglutida, remédio e exercício juntos preservaram a densidade dos ossos.
- Ensaio de musculação com tirzepatida ainda não foi publicado: a recomendação é forte, mas a prova direta ainda falta.
O remédio ajuda a emagrecer; o treino de força é o que as sociedades pedem junto
Antes: o peso cai, mas o treino é improvisado, ninguém anota a carga e você não sabe se a força está indo embora junto.
Depois: a ficha parte da sua anamnese, respeita a sua capacidade, e cada série fica registrada para a comparação das semanas mostrar se a força se mantém.
A ponte: no Make4Fit a IA tira dúvida de treino 24 horas por dia, e as decisões sobre o remédio ficam com o seu médico. Treino, dieta e avaliação entram no mesmo plano, e o valor está na página.
Referências
- Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: A joint advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and the Obesity Society. Obesity Pillars, 2025.
- Alexander L, Purnell JQ, Burridge K, et al. Joint TOS/OMA/OAC Expert Guidance Statement on the Pharmacological Management of United States Adults With Overweight or Obesity Using the GRADE Approach. Obesity, 2026.
- Deller M, Weiershaus J, Held S, Brinkmann C. Effects of Calorie Restriction With and Without Strength, Endurance or Mixed Training on Fat-Free and Skeletal Muscle Mass in Overweight or Obese Individuals: A Systematic Review With Pairwise Meta-Analysis and Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Studies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026. 34 ensaios.
- Sardeli AV, Komatsu TR, Mori MA, Gáspari AF, Chacon-Mikahil MPT. Resistance Training Prevents Muscle Loss Induced by Caloric Restriction in Obese Elderly Individuals: A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients, 2018. 6 ensaios.
- Jensen SBK, Sørensen V, Sandsdal RM, et al. Bone Health After Exercise Alone, GLP-1 Receptor Agonist Treatment, or Combination Treatment: A Secondary Analysis of a Randomized Clinical Trial. JAMA Network Open, 2024. 195 participantes.
- Vandoni M, Gatti A, Rossi V, et al. Comparative Efficacy of GLP-1 Receptor Agonists, Exercise, and Their Combination on Body Composition and Glucolipid Metabolism in Adults With Overweight or Obesity: A Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Obesity Reviews, 2026. 9 ensaios.
- Mesinovic J, Hurst C, Leung GKW, et al. Exercise and dietary recommendations to preserve musculoskeletal health during weight loss in adults with obesity: A practical guide. Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders, 2025.
- Zeigler Z, Havenar J, Smith E, et al. Structured Exercise During and After Incretin-Based Pharmacotherapy Discontinuation: A Narrative Review of Mechanisms, Evidence, and Prescription Guidance. Healthcare, 2026.
- Eli Lilly and Company. Mounjaro (tirzepatide) injection: prescribing information. DailyMed, U.S. National Library of Medicine, versão de setembro de 2026.
Antes de decidir qualquer coisa
Este texto é informativo e não substitui consulta. Nenhuma informação aqui serve como recomendação para o seu caso: quem pode avaliar o seu histórico, seus exames e o que é seguro para você é um médico, um nutricionista ou um profissional de educação física registrado. Quem escreve e revisa este blog não é profissional de saúde habilitado.
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